Ligada.
Em seu início, a máquina, quando em funcionamento, era sagazmente silenciosa. Não parecia estar ligada, tampouco parecia estar existindo naquele espaço.
Porém, com o tempo - ah, o tempo! -, um pequeno ruído, e outro, mais um tanto e ela já dava sinais da sua efemeridade. Naquela tarde, porém, era insuportável o barulho.
Ele, incomodado e preocupado com tudo o quanto importante havia nela, decidiu parar de usá-la e avaliá-la por dentro. Era de pouco manejo nas artes, técnicas e percursos que envolviam a manutenção interna, mas sabia o suficiente.
Tudo em perfeita ordem aparente.
Ligou, e mais ruídos se ouviam.
Retomou o abrir da máquina e, de cara com o seu interior, após tanto e minundenciosos olhares, achou, nela, um ponto.
Era um ponto tímido e só existia ali naquele pequeno espaço, mas não negligenciável: era um espaço tão vital e necessário ao existir perfeito da máquina. O ponto de ferrugem, o ponto corrosivo, corroía e desafiava a lógica, igualmente. A máquina sempre foi tão perfeita, eficiente, talvez, quiçá, alegre. "É caso de raridade tamanho equilíbrio", sempre ouvia. Mas ela mantinha ali, naquele ponto, um aviso de que se transmudava.
O contemplou e pensou em diversas maneiras de combatê-lo: camadas de anticorrosão, lixar as camadas, mas, por fim, decidiu trocar a peça.
Achar a peça era raro. Era esgotável e somente poucas pessoas a possuíam. Mas era persistente e, atrás dela, com tanto afinco, a achou. E, assim, a máquina voltava a funcionar dia após dia, de forma como se fosse, em algum tempo, a máquina de outrora. Porém, logo após, e cada dia mais e mais, em um logo-perto, a máquina voltava ao ruído e o ponto voltava ao exato lugar. O dono-ser já não sabia como lidar. Não achava mais peças para substituir, não haviam mais pessoas para ajudá-lo. O ponto ganhava na solidão: era teimoso, paciente e timidamente expansivo (assim como inevitavelmente irreversível).
Ao fim, desistiu.
Fechou a manutenção da máquina. Decidiu que não mais cabia aquilo, não mais cabia manutenção, podia viver com aquele ponto-barulho, e ponto. Era um viver diferente, era um viver aturdido. Era dizer que viver daquela forma era viver outra vida. Não melhor, talvez pior, mas, enfim, o que importava era que era outra.
Ao tempo já sentia que algumas coisas eram ocasionadas pelo ponto. Já não via na tela da máquina algumas cores com as quais se alegrava facilmente. Os sons já não eram os mesmos: nas músicas tocadas faltavam trechos, melodias e, indubitavelmente, não atingiam mais os seus ouvidos como faziam antigamente (pareciam, a ele, reverberações filhotes do ruído da máquina). O toque, o sentir, a vivência com a máquina era diversa, nem todos que se aproximavam dela a viam da mesma forma.
Nem tudo era declínio, porém. Havia algo novo além dessas incertezas e cinzas-viveres. A máquina agora permitia uma nova função: era capaz de identificar perfeitamente outras como ela. Desnudava o véu das coisas, desmembrava o ar de felicidades e equilíbrios, enxergava, além da matéria, a existência dos outros pontos. Não era algo bom de se ver, mas, novamente pensava, nem bom, nem ruim, apenas diferente.
No final de um dia qualquer, lembrou-se de como era o silêncio, o equilíbrio, as cores e decidiu vislumbrar, por pura curiosidade (companheira antiga e já quase esquecida), como estava o velho ponto. Assustado constatou que o esforço era tão pouco para se chegar nele: tudo estava tomado. A máquina era ferrugem, corrosão e não mais um ponto, mas toda uma extensão de cores mortas. Neste momento, após tanto, ele pensou em chorar, sentiu o sentir do que era o choro, mas, mesmo assim, não conseguiu - era tão paralisante que se tornara incapaz de chorar naquele momento. Eram tantos e tão diversos pontos que até o choro eles conseguiam corroer. Era impossível negligenciar aquilo tudo, ele sempre foi um ser pensante, quanto mais agora.
Antes de tampar olhou-a mais uma vez, em desalento, e lá estava a máquina, sem perspectivas, senhoras dos seus ruídos e vivente das suas incertezas. Porém, surpreso, constatou que nela, ainda residia um brilho, um ponto de esperança (ou um contraponto de corrosão). Era pequeno, tão suave que podia-se atribuir a ele uma inexistência.
E ele enxergou no ponto-brilho um fio de futuro, um fio de algo que não conseguia explicar: ele enxergou nele um ser do passado, tão, mas tão distante, que até duvidava, naquele momento, que aquele ser, em algum dia, já existiu - mas existira.
O ponto-ser olhou pra ele e em um diálogo que o fez duvidar de sua sanidade lhe disse: "Estou aqui para lhe lembrar que esse é o seu dom: reerguer-se cada vez mais forte". E por alguns instantes a máquina voltou ao equilíbrio, silêncio e paz. Era um contraponto que precisava do ponto para existir. Era o sentido que faltava naquele chão de giz.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
sábado, 25 de outubro de 2014
Sobre um casal em um diálogo qualquer (numa varanda).
Na varanda ele a observava de costas: fumava um cigarro qualquer, daqueles que ela saía espalhando pela casa para não se perder na vontade. Estava ela nua com as pernas cruzadas em um claro desequilíbrio.
Não era uma falta de talento, era a disposição em equilibrar-se mais à rede de proteção, já estendida pelo olhar dela abaixo. Pensava ele como ela se comportaria se não houvesse aquela rede, pensava, até, se foi dela aquela ideia da rede ou se era uma espécie de providência divina.
Voltando-se a si, tinha poucas certezas naquele momento, indubitavelmente ela era linda, e indubitavelmente eles eram forças contrárias na natureza. Lembrou-se do relato sobre um tornado ao pé de uma montanha que, em clara prova de que o impossível é só um ponto de vista, ascendeu derrubando a floresta, impassível pelo tempo, protegida do outro lado daquela muralha de rochas e certezas: assim eram os dois. Ora ela aquele furacão, ora ele era aquela montanha e os dois se alternavam nestas funções.
Aproximou-se dela naquele início de madrugada. Ela já o sentia, mas não se importava em estar alerta - e ele sorria ao pensar em quanto tempo demorou até ela baixar a guarda. Se cumprimentaram com um sorriso. Ela apagou o cigarro, já pela metade, acendendo outro e oferecendo-o um. Os pensamentos dele surgiam e se extinguiam como a brasa que pulava em cada tragada. Ela era indubitavelmente um presente e eram os dois, indubitavelmente, tortos, quebrados, porém completos com aquelas imperfeições.
Não eram um casal.
Definitivamente isso não se encaixava nos dois. Ela mais jovem, mais aguerrida, mais impulsiva, e já havia conquistado tanto material e profissionalmente. Ele ainda nos primeiros passos, mas já certo do que queria.
De igual sobre os dois era a certeza formada na dor, a insegurança, somente afastada pela raiva dela ter existido, e a quebra - claramente eram duas almas quebradas. Eram dois fora da graça: depois de constatarem isso em suas histórias, brincavam com seus descontornos, ao final das contas.
Apesar disso e nem por isso, nem podiam, nem quereriam ser um casal. Mas nem por isso eram pior: eram definitivamente uma combinação. Se isso significava ser melhor, pouco se importavam ou sabiam, mas definitivamente não eram pior do que qualquer casal (clichê ou não-clichê).
Após, silêncio.
Os dois já olhavam pra baixo. Ele cansou - a vertigem na verdade o abraçara - e virava-se de costas para o vazio-escuro entre o apartamento dela e o chão. Ela encostou a cabeça em seu ombro, provavelmente cansada de flertar com o mesmo vazio, e o perguntou:
- Você sorri pouco. Foi o que mais eu reparei quando lhe conheci.
- É bom economizar para quando realmente valha a pena. (Respondeu ele um pouco irônico esperando a reação dela). Como agora. (E sorriu).
Silêncio por mais uns minutos.
- O que será que tanto pensamos?. Ela, intuitiva, questionou.
- Eu realmente não sei, mas realmente muda quando há você.
Ela parou, apertou os olhos verdes-olivas tentando dialogar com alguma ironia ou mentira, passou a mão na cabeça de tão curtos cabelos, sorriu e disse:
- Finalmente algo em comum.
E voltaram a se deitar, um pouco mais distantes do passado e um pouco mais próximos um do outro do que antes.
Não era uma falta de talento, era a disposição em equilibrar-se mais à rede de proteção, já estendida pelo olhar dela abaixo. Pensava ele como ela se comportaria se não houvesse aquela rede, pensava, até, se foi dela aquela ideia da rede ou se era uma espécie de providência divina.
Voltando-se a si, tinha poucas certezas naquele momento, indubitavelmente ela era linda, e indubitavelmente eles eram forças contrárias na natureza. Lembrou-se do relato sobre um tornado ao pé de uma montanha que, em clara prova de que o impossível é só um ponto de vista, ascendeu derrubando a floresta, impassível pelo tempo, protegida do outro lado daquela muralha de rochas e certezas: assim eram os dois. Ora ela aquele furacão, ora ele era aquela montanha e os dois se alternavam nestas funções.
Aproximou-se dela naquele início de madrugada. Ela já o sentia, mas não se importava em estar alerta - e ele sorria ao pensar em quanto tempo demorou até ela baixar a guarda. Se cumprimentaram com um sorriso. Ela apagou o cigarro, já pela metade, acendendo outro e oferecendo-o um. Os pensamentos dele surgiam e se extinguiam como a brasa que pulava em cada tragada. Ela era indubitavelmente um presente e eram os dois, indubitavelmente, tortos, quebrados, porém completos com aquelas imperfeições.
Não eram um casal.
Definitivamente isso não se encaixava nos dois. Ela mais jovem, mais aguerrida, mais impulsiva, e já havia conquistado tanto material e profissionalmente. Ele ainda nos primeiros passos, mas já certo do que queria.
De igual sobre os dois era a certeza formada na dor, a insegurança, somente afastada pela raiva dela ter existido, e a quebra - claramente eram duas almas quebradas. Eram dois fora da graça: depois de constatarem isso em suas histórias, brincavam com seus descontornos, ao final das contas.
Apesar disso e nem por isso, nem podiam, nem quereriam ser um casal. Mas nem por isso eram pior: eram definitivamente uma combinação. Se isso significava ser melhor, pouco se importavam ou sabiam, mas definitivamente não eram pior do que qualquer casal (clichê ou não-clichê).
Após, silêncio.
Os dois já olhavam pra baixo. Ele cansou - a vertigem na verdade o abraçara - e virava-se de costas para o vazio-escuro entre o apartamento dela e o chão. Ela encostou a cabeça em seu ombro, provavelmente cansada de flertar com o mesmo vazio, e o perguntou:
- Você sorri pouco. Foi o que mais eu reparei quando lhe conheci.
- É bom economizar para quando realmente valha a pena. (Respondeu ele um pouco irônico esperando a reação dela). Como agora. (E sorriu).
Silêncio por mais uns minutos.
- O que será que tanto pensamos?. Ela, intuitiva, questionou.
- Eu realmente não sei, mas realmente muda quando há você.
Ela parou, apertou os olhos verdes-olivas tentando dialogar com alguma ironia ou mentira, passou a mão na cabeça de tão curtos cabelos, sorriu e disse:
- Finalmente algo em comum.
E voltaram a se deitar, um pouco mais distantes do passado e um pouco mais próximos um do outro do que antes.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Enraizou-se poro a poro,
célula a célula,
Da derme ao profundo,
Do olhar ao mais recôndito d'alma
inspirou-se,
espiou,
fincou-se.
E deu uma nova dimensão,
cercou-se de um novo tom,
Coloriu-o com cores pastéis,
cinzas e anis
Podia enxergar n'outros aquele dom,
se aproximava assim do perdido,
do estranho e do puído,
do falso alegre e do sem sentido,
Quanto poder se destrava,
pensava,
nesta tristeza clara e alva.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Referências perdidas
"Tudo o que existe é justo e injusto e em ambos os casos é igualmente justificado" (O nascimento da tragédia, Nietzsche, p. 68, perdido em uma das páginas de um artigo não publicado).
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Desta e de outras após.
É vazia-mecânica a lógica em nascer, viver e morrer.
Já morri tantas vezes quanto abandonei meus sonhos.
Já renasci tantas outras quando os ressuscitei
- e trouxe tantos outros comigo da morte-perene.
Já morri tantas vezes quanto me perdi de mim.
E já renasci tantas outras quando me reencontrei,
mais forte,
mais decidido,
mais objetivo:
menos amor em extensão,
mas muito mais em raridade.
E já morri tantas vezes quantas perdi você,
mas, eis aqui,
eu,
quando nem conhecia da sua existência,
renascendo outra vez.
domingo, 31 de agosto de 2014
Pessoa.
Neste pensar descomedido sobre o ir-e-vir-da-vida encontrei Pessoa ao acaso e ele me disse:
A morte é a curva da estrada,
A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
A morte é a curva da estrada,
A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Um pouco daquele bigodudo
Apolo, vai-te, Dionísio, vem-te,
Em harmonia bruta,
nesta luta dês sempre perdida,
ambos em vão,
Vão-te, vêm-te,
Vendados, vendeta.
Da tragédia grega produto de dois irmãos,
Apolo é sonho, sincronia, perfeição e forma,
Dionísio é cru, embriaguez real da dor e sinceridade.
Apolo-construto chega-te,
e os teus dionisíos vão
Dionísio-loucura chega-te,
E a verdade é sã
Em harmonia bruta,
nesta luta dês sempre perdida,
ambos em vão,
Vão-te, vêm-te,
Vendados, vendeta.
Da tragédia grega produto de dois irmãos,
Apolo é sonho, sincronia, perfeição e forma,
Dionísio é cru, embriaguez real da dor e sinceridade.
Apolo-construto chega-te,
e os teus dionisíos vão
Dionísio-loucura chega-te,
E a verdade é sã
segunda-feira, 14 de julho de 2014
A voz da pergunta era frágil, mas parou o som: seu pensamento-questão gritava mais alto do que todo o ambiente. Se via destacado e, por isso, se assustou: não via mais aquelas pessoas que lhe cercavam.
Não era tão diferente dos outros momentos, quanto mais silêncio, menos estava presente, quanto mais barulho, mais estava ausente (no fundo, era um segredo bem guardado: ele nunca esteve aqui...).
Dois puxões em sua camisa para que ele respondesse a sua pergunta - e voltasse ao inferno dos decibéis.
Ela era estranha, alheia também de certa forma, ele não sabia se ela raciocinava comumente ou se estava em um estado alheio-similar. Muito provável que não, outro como ele era raro: Deus é bom.
E ela tornou a perguntar: "e o que te trouxe aqui?" E o barulho se foi, foi levado para outro mundo e ali soube que aquele resgate não podia ser obra de qualquer homem, só do amor.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
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