sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A máquina ou um Epílogo do Passado ou Metáfora do corpo e da alma.

Ligada.

Em seu início, a máquina, quando em funcionamento, era sagazmente silenciosa. Não parecia estar ligada, tampouco parecia estar existindo naquele espaço.

Porém, com o tempo - ah, o tempo! -, um pequeno ruído, e outro, mais um tanto e ela já dava sinais da sua efemeridade. Naquela tarde, porém, era insuportável o barulho.

Ele, incomodado e preocupado com tudo o quanto importante havia nela, decidiu parar de usá-la e avaliá-la por dentro. Era de pouco manejo nas artes, técnicas e percursos que envolviam a manutenção interna, mas sabia o suficiente.

Tudo em perfeita ordem aparente.

Ligou, e mais ruídos se ouviam.

Retomou o abrir da máquina e, de cara com o seu interior, após tanto e minundenciosos olhares, achou, nela, um ponto.

Era um ponto tímido e só existia ali naquele pequeno espaço, mas não negligenciável: era um espaço tão vital e necessário ao existir perfeito da máquina. O ponto de ferrugem, o ponto corrosivo, corroía e desafiava a lógica, igualmente. A máquina sempre foi tão perfeita, eficiente, talvez, quiçá, alegre. "É caso de raridade tamanho equilíbrio", sempre ouvia. Mas ela mantinha ali, naquele ponto, um aviso de que se transmudava.

O contemplou e pensou em diversas maneiras de combatê-lo: camadas de anticorrosão, lixar as camadas, mas, por fim, decidiu trocar a peça.

Achar a peça era raro. Era esgotável e somente poucas pessoas a possuíam. Mas era persistente e, atrás dela, com tanto afinco, a achou. E, assim, a máquina voltava a funcionar dia após dia, de forma como se fosse, em algum tempo, a máquina de outrora. Porém, logo após, e cada dia mais e mais, em um logo-perto, a máquina voltava ao ruído e o ponto voltava ao exato lugar. O dono-ser já não sabia como lidar. Não achava mais peças para substituir, não haviam mais pessoas para ajudá-lo. O ponto ganhava na solidão: era teimoso, paciente e timidamente expansivo (assim como inevitavelmente irreversível).

Ao fim, desistiu.

Fechou a manutenção da máquina. Decidiu que não mais cabia aquilo, não mais cabia manutenção, podia viver com aquele ponto-barulho, e ponto. Era um viver diferente, era um viver aturdido. Era dizer que viver daquela forma era viver outra vida. Não melhor, talvez pior, mas, enfim, o que importava era que era outra.

Ao tempo já sentia que algumas coisas eram ocasionadas pelo ponto. Já não via na tela da máquina algumas cores com as quais se alegrava facilmente. Os sons já não eram os mesmos: nas músicas tocadas faltavam trechos, melodias e, indubitavelmente, não atingiam mais os seus ouvidos como faziam antigamente (pareciam, a ele, reverberações filhotes do ruído da máquina). O toque, o sentir, a vivência com a máquina era diversa, nem todos que se aproximavam dela a viam da mesma forma.

Nem tudo era declínio, porém. Havia algo novo além dessas incertezas e cinzas-viveres. A máquina agora permitia uma nova função: era capaz de identificar perfeitamente outras como ela. Desnudava o véu das coisas, desmembrava o ar de felicidades e equilíbrios, enxergava, além da matéria, a existência dos outros pontos. Não era algo bom de se ver, mas, novamente pensava, nem bom, nem ruim, apenas diferente.

No final de um dia qualquer, lembrou-se de como era o silêncio, o equilíbrio, as cores e decidiu vislumbrar, por pura curiosidade (companheira antiga e já quase esquecida), como estava o velho ponto. Assustado constatou que o esforço era tão pouco para se chegar nele: tudo estava tomado. A máquina era ferrugem, corrosão e não mais um ponto, mas toda uma extensão de cores mortas. Neste momento, após tanto, ele pensou em chorar, sentiu o sentir do que era o choro, mas, mesmo assim, não conseguiu - era tão paralisante que se tornara incapaz de chorar naquele momento. Eram tantos e tão diversos pontos que até o choro eles conseguiam corroer. Era impossível negligenciar aquilo tudo, ele sempre foi um ser pensante, quanto mais agora.

Antes de tampar olhou-a mais uma vez, em desalento, e lá estava a máquina, sem perspectivas, senhoras dos seus ruídos e vivente das suas incertezas. Porém, surpreso, constatou que nela, ainda residia um brilho, um ponto de esperança (ou um contraponto de corrosão). Era pequeno, tão suave que podia-se atribuir a ele uma inexistência.

E ele enxergou no ponto-brilho um fio de futuro, um fio de algo que não conseguia explicar: ele enxergou nele um ser do passado, tão, mas tão distante, que até duvidava, naquele momento, que aquele ser, em algum dia, já existiu - mas existira.

O ponto-ser olhou pra ele e em um diálogo que o fez duvidar de sua sanidade lhe disse: "Estou aqui para lhe lembrar que esse é o seu dom: reerguer-se cada vez mais forte". E por alguns instantes a máquina voltou ao equilíbrio, silêncio e paz. Era um contraponto que precisava do ponto para existir. Era o sentido que faltava naquele chão de giz.

Nenhum comentário: