Na varanda ele a observava de costas: fumava um cigarro qualquer, daqueles que ela saía espalhando pela casa para não se perder na vontade. Estava ela nua com as pernas cruzadas em um claro desequilíbrio.
Não era uma falta de talento, era a disposição em equilibrar-se mais à rede de proteção, já estendida pelo olhar dela abaixo. Pensava ele como ela se comportaria se não houvesse aquela rede, pensava, até, se foi dela aquela ideia da rede ou se era uma espécie de providência divina.
Voltando-se a si, tinha poucas certezas naquele momento, indubitavelmente ela era linda, e indubitavelmente eles eram forças contrárias na natureza. Lembrou-se do relato sobre um tornado ao pé de uma montanha que, em clara prova de que o impossível é só um ponto de vista, ascendeu derrubando a floresta, impassível pelo tempo, protegida do outro lado daquela muralha de rochas e certezas: assim eram os dois. Ora ela aquele furacão, ora ele era aquela montanha e os dois se alternavam nestas funções.
Aproximou-se dela naquele início de madrugada. Ela já o sentia, mas não se importava em estar alerta - e ele sorria ao pensar em quanto tempo demorou até ela baixar a guarda. Se cumprimentaram com um sorriso. Ela apagou o cigarro, já pela metade, acendendo outro e oferecendo-o um. Os pensamentos dele surgiam e se extinguiam como a brasa que pulava em cada tragada. Ela era indubitavelmente um presente e eram os dois, indubitavelmente, tortos, quebrados, porém completos com aquelas imperfeições.
Não eram um casal.
Definitivamente isso não se encaixava nos dois. Ela mais jovem, mais aguerrida, mais impulsiva, e já havia conquistado tanto material e profissionalmente. Ele ainda nos primeiros passos, mas já certo do que queria.
De igual sobre os dois era a certeza formada na dor, a insegurança, somente afastada pela raiva dela ter existido, e a quebra - claramente eram duas almas quebradas. Eram dois fora da graça: depois de constatarem isso em suas histórias, brincavam com seus descontornos, ao final das contas.
Apesar disso e nem por isso, nem podiam, nem quereriam ser um casal. Mas nem por isso eram pior: eram definitivamente uma combinação. Se isso significava ser melhor, pouco se importavam ou sabiam, mas definitivamente não eram pior do que qualquer casal (clichê ou não-clichê).
Após, silêncio.
Os dois já olhavam pra baixo. Ele cansou - a vertigem na verdade o abraçara - e virava-se de costas para o vazio-escuro entre o apartamento dela e o chão. Ela encostou a cabeça em seu ombro, provavelmente cansada de flertar com o mesmo vazio, e o perguntou:
- Você sorri pouco. Foi o que mais eu reparei quando lhe conheci.
- É bom economizar para quando realmente valha a pena. (Respondeu ele um pouco irônico esperando a reação dela). Como agora. (E sorriu).
Silêncio por mais uns minutos.
- O que será que tanto pensamos?. Ela, intuitiva, questionou.
- Eu realmente não sei, mas realmente muda quando há você.
Ela parou, apertou os olhos verdes-olivas tentando dialogar com alguma ironia ou mentira, passou a mão na cabeça de tão curtos cabelos, sorriu e disse:
- Finalmente algo em comum.
E voltaram a se deitar, um pouco mais distantes do passado e um pouco mais próximos um do outro do que antes.
sábado, 25 de outubro de 2014
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Enraizou-se poro a poro,
célula a célula,
Da derme ao profundo,
Do olhar ao mais recôndito d'alma
inspirou-se,
espiou,
fincou-se.
E deu uma nova dimensão,
cercou-se de um novo tom,
Coloriu-o com cores pastéis,
cinzas e anis
Podia enxergar n'outros aquele dom,
se aproximava assim do perdido,
do estranho e do puído,
do falso alegre e do sem sentido,
Quanto poder se destrava,
pensava,
nesta tristeza clara e alva.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Referências perdidas
"Tudo o que existe é justo e injusto e em ambos os casos é igualmente justificado" (O nascimento da tragédia, Nietzsche, p. 68, perdido em uma das páginas de um artigo não publicado).
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Desta e de outras após.
É vazia-mecânica a lógica em nascer, viver e morrer.
Já morri tantas vezes quanto abandonei meus sonhos.
Já renasci tantas outras quando os ressuscitei
- e trouxe tantos outros comigo da morte-perene.
Já morri tantas vezes quanto me perdi de mim.
E já renasci tantas outras quando me reencontrei,
mais forte,
mais decidido,
mais objetivo:
menos amor em extensão,
mas muito mais em raridade.
E já morri tantas vezes quantas perdi você,
mas, eis aqui,
eu,
quando nem conhecia da sua existência,
renascendo outra vez.
domingo, 31 de agosto de 2014
Pessoa.
Neste pensar descomedido sobre o ir-e-vir-da-vida encontrei Pessoa ao acaso e ele me disse:
A morte é a curva da estrada,
A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
A morte é a curva da estrada,
A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Um pouco daquele bigodudo
Apolo, vai-te, Dionísio, vem-te,
Em harmonia bruta,
nesta luta dês sempre perdida,
ambos em vão,
Vão-te, vêm-te,
Vendados, vendeta.
Da tragédia grega produto de dois irmãos,
Apolo é sonho, sincronia, perfeição e forma,
Dionísio é cru, embriaguez real da dor e sinceridade.
Apolo-construto chega-te,
e os teus dionisíos vão
Dionísio-loucura chega-te,
E a verdade é sã
Em harmonia bruta,
nesta luta dês sempre perdida,
ambos em vão,
Vão-te, vêm-te,
Vendados, vendeta.
Da tragédia grega produto de dois irmãos,
Apolo é sonho, sincronia, perfeição e forma,
Dionísio é cru, embriaguez real da dor e sinceridade.
Apolo-construto chega-te,
e os teus dionisíos vão
Dionísio-loucura chega-te,
E a verdade é sã
segunda-feira, 14 de julho de 2014
A voz da pergunta era frágil, mas parou o som: seu pensamento-questão gritava mais alto do que todo o ambiente. Se via destacado e, por isso, se assustou: não via mais aquelas pessoas que lhe cercavam.
Não era tão diferente dos outros momentos, quanto mais silêncio, menos estava presente, quanto mais barulho, mais estava ausente (no fundo, era um segredo bem guardado: ele nunca esteve aqui...).
Dois puxões em sua camisa para que ele respondesse a sua pergunta - e voltasse ao inferno dos decibéis.
Ela era estranha, alheia também de certa forma, ele não sabia se ela raciocinava comumente ou se estava em um estado alheio-similar. Muito provável que não, outro como ele era raro: Deus é bom.
E ela tornou a perguntar: "e o que te trouxe aqui?" E o barulho se foi, foi levado para outro mundo e ali soube que aquele resgate não podia ser obra de qualquer homem, só do amor.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Sobre o trabalho das mãos de outros e a morte.
Quando o que se adia é inadiável e você se põe a perguntar se o que se adiou, em verdade, é uma forma de se adiar uma outra coisa maior, inevitável e puramente inadiável?
Então, o primeiro inadiável era realmente inadiável ou fruto da limitação humana em enxergar o que é realmente inadiável?
Então, o primeiro inadiável era realmente inadiável ou fruto da limitação humana em enxergar o que é realmente inadiável?
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
terça-feira, 9 de julho de 2013
O convidado - um breve diálogo acerca do sentido.
Em meio ao salão de alta roda social, taça de champagne (sim, o verdadeiro), homem distintamente bem trajado se aproxima àquele de calça jeans e camisa básica. Inicia-se:
- E quem és tu dentre todos estes homens?
- Eu? Eu sou o simples que observa e anota, este sou eu.
- Anotas para o quê? Qual a finalidade de tuas notas? Espiona a nós, homens de bem?
- Anoto para fim algum além de um simples pensamento. Anoto palavras-chaves para refletir, palavras acerca das pequenas coisas que vejo, ou das conclusões baseadas em induções que concluo.
- Impropérios! Qual espécie de homem necessita a anotar coisas para pensar? Ainda mais coisas que não são a todos reveladas! Há outros objetivos, releve-os!
- Não creio que haja impropérios em tão simples notas, veja-as.
(E no bloco haviam palavras como sorriso frustrado, sorriso forçado, sorriso vazio, tristeza no olhar, tristeza nos gestos das mãos, pseudo-felicidade).
- Agora sim vejo: invadiste tal nobre festa vindo de algum manicômio! És louco!
(E assim o salão voltava-se aos dois.)
- Na verdade, o senhor me constrange um pouco. Esqueceu que eu sou o principal convidado e que foi justamente o senhor quem me chamou?
- ...
(Continua)
- E quem és tu dentre todos estes homens?
- Eu? Eu sou o simples que observa e anota, este sou eu.
- Anotas para o quê? Qual a finalidade de tuas notas? Espiona a nós, homens de bem?
- Anoto para fim algum além de um simples pensamento. Anoto palavras-chaves para refletir, palavras acerca das pequenas coisas que vejo, ou das conclusões baseadas em induções que concluo.
- Impropérios! Qual espécie de homem necessita a anotar coisas para pensar? Ainda mais coisas que não são a todos reveladas! Há outros objetivos, releve-os!
- Não creio que haja impropérios em tão simples notas, veja-as.
(E no bloco haviam palavras como sorriso frustrado, sorriso forçado, sorriso vazio, tristeza no olhar, tristeza nos gestos das mãos, pseudo-felicidade).
- Agora sim vejo: invadiste tal nobre festa vindo de algum manicômio! És louco!
(E assim o salão voltava-se aos dois.)
- Na verdade, o senhor me constrange um pouco. Esqueceu que eu sou o principal convidado e que foi justamente o senhor quem me chamou?
- ...
(Continua)
Pequeno devaneio - curta poesia
Pára, pára mundo!,
não o de todos,
mas o meu.
Para no instante
que pára
parafraseia-me
dentro do seu.
Quando enxergo,
ego, id e superego,
parou o mundo,
porque o mundo cresceu.
não o de todos,
mas o meu.
Para no instante
que pára
parafraseia-me
dentro do seu.
Quando enxergo,
ego, id e superego,
parou o mundo,
porque o mundo cresceu.
domingo, 7 de julho de 2013
inacabado.
O fundo da alma é recôndito,
é o escuro de intricadas cavernas,
onde passeio por cada uma delas,
e o sussurro sempre traz o eco:
"onde estava aquele?
entre tu e ele não há mais nenhum vínculo..."
a luz cega os olhos acostumados ao escuro,
a dor assim transmuda-se,
dor escura, da perda, da vigília, da parte.
mas sofia, sábia, sabia, o que não se via:
a resposta.
...
sexta-feira, 5 de julho de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
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